Espaço do Autor
Poesia de Maria Manuel Pereira Reis 

Mar Espelhado



Em percurso de repetido viajante
ilumina-me onde me sento deste lado
alonga-se, reflete-se ondulante,
num trilho de fim de dia acobreado.


Na minha retina vibra o mar espelhado
em poderosa assemelhação a fogo incandescente
arrebata o meu corpo neste areal extasiado
que fica, mantém-se, mostrando o que sente. 


Maria Manuel Reis
6 de agosto, 2019 


Renúncia


Hoje abstenho-me de falar

sufoco a insurgência de uma entoação,
mimico que digo, labializo suspiros de ar,
e a boca não me enuncia nem me diz que não


Hoje abstenho-me de ouvir
sustento a ausência de qualquer escuta,
finjo que ouço, calo um zunir,
e o ouvido não me contraria nem me perscruta


Hoje abstenho-me de sentir
isolo a envolvência de uma sensação breve,
ignoro que sinto, proíbo um fremir,
e o coração não me censura nem me persegue


Hoje abstenho-me de estar
confirmo a inexistência da presença,
minto que estou, invento-me um lugar,
e o corpo não me exige nem me pede licença.

Maria Manuel Reis
7 de abril, 2019 


Poeticamente, uma imagem.

Se o que escrevo é o que vejo,

a poesia mora todos os dias nos meus olhos.

Maria Manuel Reis 


Quero-te sempre feliz...

Crio-te para a felicidade

desde o primeiro dia.

                                           Maria Manuel Reis


Sentido

Por breves instantes

a plenos pulmões encher-me de vento

sorvê-lo de um trago, na superfície ondeante da espuma

engolir ruído, ar, movimento.


Por breves instantes

a plenos pulmões encher-me deste alarido

bebê-lo de uma lufada, no espelho reflexo de um acaso

devorar liberdade, tempo, sentido.

Maria Manuel Pereira Reis 
25 de janeiro de 2019


Cais do silêncio

Um certo fim de dia que anunciava outro dia... 


CAIS DO SILÊNCIO


Tenho a alma atracada

ao cais do silêncio...

Não se ouvem cordas,

nem amarras, nem cabos,

nem lodos secretos...

Nem mesmo a embarcação

que antes navegou

ousa murmurar um só sufoco...

tão-só se acorrenta a um ponto de chegada

onde parada aí estacou.

Fecham-se palavras

num absurdo mudo e tremendo

como âncoras fundeadas

- imobilizadas -

presas em crescendo.

Não se ouvem cidades,

nem tumultos, nem apertos,

nem fugas desenfreadas...

Onde o sol se põe são águas acobreadas

de reflexo silente e reverendo.

Estou ancorada - fico calada - levito,

não digo nada

- leve a suspeita de que ainda me suspendo...


Maria Manuel Pereira Reis

... 2018

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O seu nome...

O SEU NOME...

Disse que era José

e mendigava

Uma volta que se trocou

em alguma estrada

Um caminho sem saída

numa rota destraçada

E viu-se novo firmeza dissolvida

e alma magoada

Perdidos sul e norte

outros pontos cardeais e

uma parte da vida...

Chamem-lhe destino, chamem-lhe fado

- Quem sabe, desilusão, falta de sorte!

Mas é a história de si

do seu corpo maltratado

E então compreendi

que se sentava num trapo

enrodilhado

entre o pano, o frio

e o que tremia na sua boca

Talvez a fome e estar fraco

Talvez o que não vestiu

e estar parado

Jamais será coisa pouca

a carência do que não se tem

achar que se é nada e vazio

e não ter rigorosamente ninguém...

Só quem nunca o sentiu

poderá chamar de louca

a vontade de ajudar

saber e perguntar

como se preenche uma tristeza oca

porventura também solitária e vã

- se forem estes os adjetivos da sua descrição

e da incógnita de amanhã

Está aqui do que poderá comer, não é muito, mas é

olhou, agradeceu, não disse que não

Sentado onde quer que se sente

o seu nome é, será - ainda, sempre - José.


Maria Manuel Pereira Reis

novembro de 2018

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