Espaço do Autor
Maria Manuel Pereira Reis (2019)

Fotografia: Maria Manuel Reis
Fotografia: Maria Manuel Reis


Não preciso que mo digam. Basta vê-lo. Esse bocado de civismo que ainda falta por praias portuguesas. Nem a preciosidade inigualável desta amplidão de areais dourados arejada de brisa atlântica, onde se hasteia o azul de uma bandeira orgulhosa e prestigiante, - e outras tantas amplidões que se batem pelo mesmo prestígio diariamente - é suficiência para melhorar certos comportamentos. Apesar da abundância, também parecem pecar por insuficientes as placas, os avisos, as notícias, as campanhas extensas e esperançadas que vasculham, recolhem e enchem sacos impressionantes de lixo resistente, solto, à deriva, dando o exemplo esforçado do que pode ser feito quando não é com facilidade que se desiste de acreditar. Isto porque ainda há quem enterre uma beata entre grãos finos como se despojadamente enterrasse um problema que não é seu (se não o testemunhasse nunca o afirmaria). Porque ainda há quem considere cansativo, para não dizer dispensável, trazer o desfecho, as sobras finais de tudo o que soube levar consigo em início de inícios, horas antes. Para alguns, julgando eu ser uma minoria a minorar, decréscimo assinalável, o muito que ainda fica, deixado em abandono inconsciente, será coisa pouca, se não invisível a olhos esquecidos e imperturbados, faltando-lhes interiorizar essa dimensão pública e respeitosa que lhes é justamente exigida. Aqui, lugar de todos, terra habitável de esperança vindoura, e em firmada crença de que não está tudo temporalmente perdido como possa o presságio predizer ou agourar.

Não sou de vincar falsas moralidades nem de apregoar discursos com pompa e circunstância. Mas há aquilo que me incomoda. Lamento. 
A fotografia é a nota visual da costela alentejana que trago desde dias dessa infância, sítio ainda a encantar-me, encantador, a merecer o meu olhar de atenção e as palavras que a custo conseguiria calar, temendo a força de um engasgo indesejavelmente asfixiante e insonoro.


Maria Manuel Reis
20 agosto, 2019 

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Os dias simples não vivem de muito, vivem do essencial. Não se perdem em ruas complicadas nem se desviam da sua própria calma. Os dias simples distraem-se de muitas maneiras, sabendo que a distração os foca no bem-estar e na alegria. Os dias simples são macios na pele, levam-se a passear de mão dada, e aromatizam-se da madurez de amoras silvestres. Os dias simples dormem sempre aconchegados, em casas que se edificam como um reino de uma glória distinta.
Nem todos os dias vivem esta simplicidade mas, os que podem vivê-la, merecem que alguém simplesmente os conte.


Maria Manuel Reis
11 de agosto, 2019


Agosto campista


A força de boas memórias e vontade de escrever...

AGOSTO CAMPISTA


Era sempre em agosto. Nunca antes, nunca depois. Confesso que, a cada verão, aguardava o momento com ampliada expectativa. O destino era também o mesmo, pela costa alentejana, no entanto, era aquele que me fazia vibrar de alegria efusiva e genuína. Terra de pessoas afáveis, com sotaque quente e verdadeiro. 
Tratando-se apenas de alguns dias, poder-se-ia imaginar que os preparativos seriam mínimos e de inequívoco simplismo. Contudo, mais eram os apetrechos e objetos reunidos do que os dias efetivos de campismo. 
A preparação seguia um método preciso, começando por elementos obrigatórios, de incontornável dimensão campista, para seguidamente enveredar para a cozinha improvisada, e aí eram agrupados bancos, cadeiras e mesas, desdobráveis e extensíveis, taparueres, caixas, caixinhas, caixotes disto e daquilo, num conjunto estrategicamente arrumado. Comida, muita. Geleiras de tamanho mediano ou avantajado eram imprescindíveis, e utilmente proporcionavam assentos extra. Rematava-se com o móvel de cozinha e o fogão. Sem esquecer lanternas e os Petromax a gás. 
Uma camioneta de caixa aberta ao vento e aos sorrisos transportava tudo isto até essa casa de uma pequenez que não nos incomodava, erguida perante os nossos olhos ansiosos e impacientes. Outras tendas acercavam-se, mais familiares concentravam-se num aglomerado que se punha a prumo, orgulhoso e resistente, o acampamento alastrava como cogumelos por entre barracas e caniços, e uma massa humana e divertida convivia numa faixa recuada de praia, num local natural, livre, permitido e respeitado por todos. 
Os dias alvoravam claros e mornos. Acordávamos sempre com aquele sol presente e inteiro. Grande como a nossa felicidade. As peles eram besuntadas e grãos de areia finos colavam-se, untuosos, à nossa pele protegida, durante brincadeiras e jogos remexidos. Estendiam-se toalhas no areal dourado, vigiando o regresso dos banhos de mar, umas vezes prolongados, outras vezes mais fugazes, pelos movimentos agitados das ondas, que pareciam empurrar-nos para fora obrigando-nos a esperar por novas oportunidades. Tornávamo-nos corpos cada mais salgados e morenos. As preocupações de todos davam sinais de relaxamento. Os rostos ganhavam a cor do descanso. Os gestos reproduziam rotinas isentas de certos preceitos, obrigações ou outros compromissos. 
Amanhava-se muito peixe. Os almoços e os jantares faziam jus aos que pescavam, aos que cozinhavam. Um vapor condimentado ondeava pelo ar, chegando a cada recanto da nossa pequena multidão. Sentávamo-nos como podíamos, próximos, muito próximos, quase colados, tais figuras de uma tela que nos retratasse, ou como se fôssemos modelos para uma fotografia de grupo, sorridentes, sem constrangimentos que nos afastassem uns dos outros. Às refeições conversava-se muito. Repetiam-se histórias numa revisita constante. Pelo meio, soltavam-se gargalhadas que se propagavam, destemidas e sinceras. 
A dada altura, uma fileira de canas de pesca elevava-se das areias, que aos poucos humedeciam e eram abandonadas, prenunciando a chegada da noite. Pareciam encerrar mistérios, esconderijos sussurrados. As lanternas apontadas aos tecidos grossos que nos cobriam produziam feixes de luz cruzados com as estrelas velando a praia. Muitos eram os que ficavam até tarde sob o céu vasto e pontilhado a murmurar assuntos e segredos. A natureza envolvente selava a escuridão e a marejada embalava-nos com os seus sons, num sono calmo e profundo.
Tornar realizável o nosso ensejo de residir temporariamente numa tenda familiar era uma obra de aturada paciência. Reconheço-o agora, à distância dos mais de trintas anos que me separam desses tempos. 
Era uma semana que me fugia como areia entre os dedos. Nunca sabia muito bem em que dia estava, se segunda-feira, se sexta-feira. Não fazia questão de o saber, ou sequer de perceber quanto faltava para desmontarmos a curteza daquela permanência. Apercebia-me, sim, que era um sonho montável que depressa se desfazia em pequenas parcelas de saudade, deixadas naquele pedaço provisório de férias, de casa, e de vida vivida ao sabor de qualquer maré.


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Maria Manuel Reis
3 de agosto, 2019
 



É urgente ser feliz. O mês começa como um surgir de novo. São outros dias, outros lugares ao sol, onde quer que a terra os guarde, os reserve, à espera de alguém, à espera de nós. A felicidade mora sempre em pequenos grandes cantos, retiros, esquinas delicadas de qualquer momento por vir.


Maria Manuel Reis
1 de agosto, 2019 


Envolvo uma chávena colorida, larga, a beber o chá que preparei, e esse episódio assalta-me de novo. Ao meu lado, em frente ao balcão, observava-me, ouvia-me. Virou-se depois, encarando-me com voz segura e ponderada, e disse, faça um chá de hortelã, bem forte, e beba-o ao longo do dia, vai ver que melhora. Obrigada, respondi instintivamente, vou experimentar, quem sabe. Ignoro se entremostrei um sorriso ou se produzi outro gesto. Saí para a rua a filtrar a vastidão deste conselho, partilhado com tamanha sinceridade. E pensei, como ainda penso, pudesse qualquer chá fazer assim tanto por mim, uma espécie de reparo definitivo ou inquestionável remédio santo.

Pois bem, com ou sem efeito visível, não prescindo de um bom chá, a meu gosto, tomado quando a vontade me leva ao seu encontro. Seja num dia de verão, "fechadinho de chuva", ou na frescura de um momento de "grandes calores", como às vezes se sente por aqui, neste meu recanto vivido a sul.

Maria Manuel Reis

27 de julho, 2019



Guardo ainda as palavras que me disse nessa última aula, no alinhamento das últimas aulas, antes que o pano descesse e o meu palco perdesse os seus atores principais. À semelhança de outra aluna especial que tive nesse ano sobressaltado, era sensível, meiga, compreensiva e lutadora.
Entendeu-me desde o primeiro minuto.
Mais cedo ou mais tarde, os reencontros acontecem. Enquanto caminhava lentamente, ladeando o mar - qualquer coisa que buscava -, olhou para mim com olhos abertos de espanto e reconhecimento. Saudou-me enternecidamente. Nunca poderia esperá-lo sem a ternura dos seus braços. O céu entretanto embrulhara-se, despedindo da praia quem pela tarde a houvera aproveitado.
Nós ali.
As emoções espiavam o que dizíamos. Algumas lembranças reavivavam-se no contexto do nosso presente, a unir pontas soltas de tempo. Mutuamente, comemorávamos o que de melhor os nossos palcos têm vindo a exibir, com franqueza pura, sem artifícios, totalmente a desnudo. Não se assistem a falsas encenações quando nada há de mais autêntico do que a luz de cada dia a nascer.
Foram momentos preciosos. Nessa busca que levara comigo achei-me então completa.

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Maria Manuel Reis
24 de julho, 2019 


A cidade. Multidões de turistas em trânsito. Passeios e ruas de gente com férias, talvez um breve fim de semana, uma viagem passageira. Por ali também, outras multidões, as de cá, as de sempre. 
E nunca como agora, acho.
Eu era uma miúda e íamos à cidade. De longe a longe, o autocarro levava-nos às compras (quando calhava, ao cinema). Não raras vezes adormecia, encostada ao braço da minha mãe, enquanto atravessávamos todas as terras para lá chegar. Esse tal ponto capital e maior no mapa da escola. 
Era-o já na altura. Um lugar grande que visitava, incontida no entusiasmo. Tinha tudo. Outras coisas, as que não via em mais lado nenhum. As lojas eram bonitas e os armazéns enormes - aqueles engolidos por um incêndio que vi na televisão, imenso fumo negro, tão triste, que confusão me fez! Ainda o enredado de calçadas no qual não queria perder-me, a minha mão firme na da minha mãe, evitando que me perdesse. 
A Lisboa de então e a de hoje. Equaciono as parecenças e as dissemelhanças. O que resta intacto e perdurado avizinhando o que se tece nas malhas da mudança, da ampliação, da roda-viva, da novidade. Sigo as multidões que deslizam.
Entre chegadas e partidas, enquadram-se na traça das casas mais antigas, dos largos, dos bairros, saboreiam prazeres irresistivelmente doces e tentadores, animam-se com a animação eletrizante, concentram-se numa fotografia aqui, outra tirada a seguir. Da oportunidade única, e em momentos-chave, acumulam registos memoráveis, eternizando a sua passagem. Vivem o tempo como um movimento incessante. 
E a cidade submete-se ao tempo. Movimentando-se, imita-lhe o ritmo, persegue-lhe as horas, os minutos, os segundos.
Ambos percorrem exatamente o mesmo caminho. Íntimos e paralelos.


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Maria Manuel Reis
21 de julho, 2019 



Estava aqui a pensar que ainda não é garantido que o verão tenha vindo para ficar. Ou se chegou sequer a vir, se considerarmos a data em que o calendário o assinala, não obstante a força do que vai mudando nos calendários do tempo. Saliento que a minha constatação meteorológica resulta do ponto em que me encontro. Esse ponto é a minha referência, o radar que me transmite os sinais óbvios desta timidez veraneante e imprevisível.
Seja como for, o fim de semana já espreita por uma fresta qualquer. Assim sendo, gozem-no plenamente. Peguem na vossa imaginação, recriem-se, reinventem-se e usufruam de um recanto onde sabem à partida que vão ficar estupendamente bem.

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Maria Manuel Reis
5 de julho, 2019 


Desenhos de quase verão


A hora era relativamente calma. Entrou discretamente e aproximou-se com uma pergunta decidida que a conduzira até ali.
- Tem folhas brancas gigantes que possa dar-me? Uma, duas.
- O que é para ti uma folha gigante?
- É uma daquelas que não cabem no dossier da mochila. Só dobradas. São folhas para desenhos grandes, muito maiores do que os que posso desenhar nas outras. 
Não havia folhas dessas, gigantes, que podem encher-se de tudo o que é grande ou enorme. Apenas as das mochilas, as que sem se dobrarem lá cabem perfeitamente.
- Então, pode ser. Se não fizer diferença, quero duas. 
Resignava-se, aceitando o que havia. Sentou-se a uma das mesas e pegou no lápis de carvão que levava consigo. Junto a si, tão-só isto, duas folhas em branco, pequenas de mais para o que ambicionara, e um simples lápis de carvão.
- Tenta o maior possível no espaço que tens.
Assim foi. Fê-lo, demoradamente. A hora era sua. Deixou-se estar, distraindo-se de quem estava e de quem ia chegando, concentrada em exclusivo nas formas que via nascer.
Talvez pensasse nas férias tão próximas e longas e do que faria com elas. Talvez desenhasse o seu verão. Ou porventura desafiava fronteiras e estendia a sua imaginação para lá do que estas duas folhas - inferiores ao que idealizara para aquele momento - lhe permitiam sonhar e recriar.

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Maria Manuel Reis
17 junho, 2019 


Como cai a chuva, caem-me, por vezes, lágrimas. Ou se não se deixam cair, atrevem-se a alagar abundantemente os meus olhos, como água incontida de uma inconfidência sem segredos, sem nenhum mistério. Ando assim, nesta evidência. Transparente. Há um abraço que me rodeia, um beijo na face que me surpreende, meninos que me ouvem e mostram que me sentem, sabendo de mim o que de mim conhecem; aquele alguém que rasgadamente sorri enquanto me presenteia, antevendo do presente e da reação que escolheu bem, e que irá agradar, num gosto sincero que nos dá todo o gosto.
Nunca achei que chorar fosse fraqueza dos fracos. Chorar é a armadura dos corações fortes. É a consolidação máxima das maiores alegrias e das mais fundas tristezas. É a supremacia de fios silenciosos e cristalinos que aos poucos nos revelam, como nuvens que se aligeiram e dispersam, permitindo que o céu mude de cor e se erga menos denso, opressivo e esmagador.

 

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Maria Manuel Reis
6 de junho, 2019


Envelhecendo na mesma proporção

As histórias que temos, por motivos vários, não são iguais. Esta é a história que é. Pela partilha carinhosa, que agradeço, decidi escrevê-la. Uma pequena parte do que poderia ser contado...

ENVELHECENDO NA MESMA PROPORÇÃO

A melancolia da tarde acentuava-lhes a pele vincada. Os seus olhos humildes sorriam e denotavam como que um entendimento secreto, que só aos dois respeitava. Sentados, lado a lado, eram um retrato de outra época. Desse tempo em que se descobriram. Num instante preciso, vi-o a olhá-la como se fosse a vez desse primeiro encontro. Aquele em que perceberam que talvez ali iniciados não mais se separassem.

- Já lá vão muitos, muitos anos, menina - diziam, quase em uníssono, ostentando o inequívoco semblante de um casal duradouro.

- Mas é preciso ter muita paciência! - argumentava ele, suspiroso e visivelmente jovial. A face enrubescida diminuía-lhe consideravelmente a idade. Os seus cabelos brancos pareciam subitamente revestir-se de outro tom.

- E eu que o diga! - retorquiu ela, ajeitando um lenço floral entre as mãos delicadas, sobre o colo, e procurando na expressão do marido a confirmação do que acabara de admitir. Não fora por insatisfação nem queixume, menos ainda por desrespeito que o dissera. Divertira-se ao dizê-lo, trazendo à tona do olhar um percetível jeito amável e brincalhão.

Quase imediatamente, veio a palavra amor. Simultânea às dificuldades e aos dissabores, aos bons momentos e às alegrias. À família constituída e alargada, às várias gerações e ao tempo.

Afortunadamente envelhecendo na mesma proporção, vivem o envelhecimento do que foram e do que agora sabem ser. Escusam-se a existir na tristeza ou solidão.

Sei que saem de casa, que passeiam por onde estão, que se sentam nas tardes e vislumbram a distância, que miram e remiram quem por ali passa, enquanto o mundo segue o seu caminho, vulgar ou invulgar.

De quando em quando, vejo-os. De mãos dadas ou não, mas sempre os dois, em direção ao seu lugar.

Inseparavelmente, juntos.


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Maria Manuel Reis

19 de maio de 2019


Um país. Polónia. A cidade. Varsóvia. Um museu do qual evoco fotografias, documentos, registos sonoros, filmagens. E a escuridão e estreiteza de um túnel que não consegui percorrer. Segunda Guerra Mundial. O pior do ser humano contra o seu semelhante. As atrocidades. Os anos cruéis. A penosa luta pela sobrevivência. Resistir para sobreviver.
Que lições aprendidas? 
Não há guerras com sentido. Nenhuma o teve no passado, nenhuma o tem no presente. Nenhuma em tempo algum o terá.

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Maria Manuel Reis

18 de maio - Dia Internacional dos Museus 

Warsaw Rising Museum - Museu da Insurreição de Varsóvia



Está o brilho e a magia

Sorriem as cores, crescem as formas
Cativam-se gostos e vontades no lugar
Onde se projeta a vida e o tempo se constrói.
Levantam paredes de sonhos, o olhar largo, e
As mãos cheias de futuro

nas letras de uma palavra vertical... 

Maria Manuel Reis
17 de maio de 2019


Escrevo. A minha voz mais poderosa, a que menos me cansa e aflige, a que ainda não me cala num silêncio que não desejo.

FALTA-ME PAÍS E PÁTRIA

Ao cabo deste tempo último, passando pelo que passei, tendo vivido o que vivi, escapa-me algum poder de compreensão e de aceitação do que socialmente me ofende e agride. Tenho sentido que me falta país e pátria. 
Espanto-me e desiludo-me, concluindo que não há quem superior e dignamente me represente e defenda, neste universo povoado de palavras avulsas que maltratam o ouvido comum. 
São demasiadas as vozes que se afinam e desafinam, num coro difuso, sem ritmo, desgarrado e incómodo. São as trapalhadas, as palhaçadas, os golpes de teatro, as crises e as falsas crises, e tantos percursos lamacentos nos quais se afundam, indignas, todas as mentiras ironicamente vacilantes e escorregadias. 
Este lugar cobre-se de sombra, apesar de intenso sol, pelas poeiras agrestes e impuras lançadas ao ar, forçosamente convidando-nos a fechar os olhos, como se não distinguíssemos, bem à nossa frente, os extremos do certo e do errado, do justo e do injusto, do tolerável e do intolerável.
O óbvio nunca se priva de ser visto. O modo é escandalosamente descarado. O desrespeito uma via alternativa. O abuso uma prática recorrente. 
Neste caminho contraditório de lama e poeira, há verdades desviadas, impossibilitadas, corrompidas. Há um fosso a céu aberto entre os grandes e ostentosos, que impunemente tudo podem, e os pequenos, mais pequenos, povo e nação esquecidos, recorte "miúdo ou miudinho" ao olhar de quem ignora o que razoavelmente reclamam. 
Avoluma-se a perceção de que a única faixa segura, a principal, confiável e transitável, está vedada, interditada a uma circulação sensata, honesta e prometedora.
Mal de mim se não tivesse a coragem suficiente para reconhecer onde as falhas se situam e engrossam, onde a incongruência nos atordoa a atenção requerida. Onde a incerteza quanto ao futuro - do país e de cada um - é a única certeza de que dispomos neste momento.
Este país que adoro merece muito. O melhor que lhe possa ser dado...

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Maria Manuel Reis

15 de maio de 2019  


Também se aprende nas ruas. Também se cresce ao ar livre.
Reclama-se a urgência do inadiável agindo, direcionando atenções, promovendo a mudança. Urgente é de facto acreditar que todos, dos mais aos menos jovens, acreditam. Que há vozes seriamente pronunciadas e ouvidas. Consciências agitadas. Sensibilidades promissoras e dinâmicas. 
Pela descrença e a inação, o mundo global, naturalmente sofrido, poderá testemunhar a sua irremediável falência. 
Sabemos que muito se perde e menos se ganha no que se deixa por fazer. 

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Maria Manuel Reis
15 de maio de 2019



Afirmava-o, sem o mínimo receio de errar:
- Sabes que das estrelas nascem sonhos?
- Acreditas que é mesmo assim? - interpelei-a, puxando pela sua convicção. 
- Acredito! Só assim as estrelas conseguem ser brilhantes no escuro. Brilham porque sonham.
- Talvez tenhas razão. Não tinha pensado as estrelas dessa forma. Vou passar a sonhá-las e a perceber como sonham, e o que sonham.
- Ainda bem que te disse. Eu sabia que ias gostar. 
- Gostei muito. É bom aprender contigo. 
Sei que, a cada noite, cresce das suas mãos o céu de um sonho maior. Sonhos somados a sonhos, entre brilhos e o escuro que os acende. Amoravelmente forte é a expressão que a inocência de uma criança põe no que acredita ser a verdade mais provada de todas as verdades.

Sonhem! E que as estrelas possam sonhar convosco!


Maria Manuel Pereira Reis
24 de fevereiro de 2019 


Fica-nos bem a generosidade. Talhada de brandura e veludo, molda-se à luz do nosso rosto. Combina com a feição desperta dos nossos olhos. Cobre-nos de uma vaporosidade delicada. Cria uma aura harmoniosa e arrebatadora ao redor de nós.

De linhas proporcionadas, ajusta-se à medida do nosso coração. Leve, assenta perfeita, completa, única, no bem-querer da nossa alma.

Um fim de domingo generoso. Uma semana generosa. 


Maria Manuel Pereira Reis 
17 de fevereiro de 2019



Amo



Amo sentir-me viva. Amo quem me faz viver. Amo de quem nasci. Amo o nome que me deram. Amo quem de mim nasceu. Amo o significado puro de família. Amo ser pessoa amada. Amo poder amar-vos.
Amo os amigos que tenho. Amo os alunos que tive. Amo os laços que temos. Amo gestos de ajuda. Amo sorrir e amplos sorrisos. Amo olhos nos olhos e braços nos braços. 
Amo os outros. 
Amo os pássaros que procuram a minha casa e aí se aninham. Amo os humores do mar. Amo os olfatos da terra. Amo a expressão das flores. Amo o semblante firme das árvores. Amo nascentes e poentes.
Amo a corrente de águas que não param. Amo a chuva que nos faz falta. Amo a coragem do vento.
Amo lugares bonitos. Amo caminhar no que vejo. Amo como tudo é diverso.
Amo meias quentes e macias no inverno. Amo quando uma lareira se acende. Amo quando o meu corpo se aquece.
Amo o calor parado de fins de dia de verão pleno. Amo noites salpicadas de estrelas. Amo enterrar os pés na areia. Amo um toque de sal na pele. 
Amo o cheiro a pão acabado de fazer. Amo chá sem açúcar. Amo chocolate.
Amo a textura criativa do que se cria. Amo o som da música que ouço. Amo o silêncio que me ouve. Amo a paciência que me entende. Amo a intemporalidade da poesia. Amo grandes histórias. Amo livros nas mãos. Amo presentes que me presenteiam. 
Amo o sabor das palavras que posso escrever (e comer chocolate). 
Amo...
Amo...
Amo...
...
...
...

Se isto é amor, só desta maneira infinita sei amar.

A infinidade do verbo amar: AMOR.

Maria Manuel Pereira Reis 
fevereiro de 2019



Não pode a voz doer-me. Não posso guardar mágoas. Entre pessoas e livros, descobri uma biblioteca de afetos. Afetuosamente, no retrato de uma escola, é o lugar onde estou. O lugar que preencho. O lugar que prende o meu coração a tantos outros corações.

Boa semana!


Maria Manuel Pereira Reis

3 de fevereiro de 2019


As palavras que agarrei 

do vento que passava


Escrever a manhã. 
Acordá-la do que a obscuridade ainda inebria e confunde. O vento é uma ameaça violenta, voz atroadora como a dureza das pedras, imagem agrestemente bela, rude e rebelde. Esgotar-se-á de si, gasto, estonteado. As aves escondem-se. Os campos enfrentam e curvam-se, como que aplanando um caminho. Desbravando-o na submissão. Momentaneamente, a chuva esquece-se de ser chuva. Não a vejo cair do que foi, muro de água, homogéneo e pesado. Tão-só chuva larga e solta que cai, empurrada para onde a levam. O mar imita o desvario do que o sacode e invade. Cresce tempestuosamente aos olhos da desordem. Irrequieta-se, branco, turbulento, abalado. Simultaneamente, forte de si.
Há um estremecimento de tudo. Uma intempérie de arrepio sacudido, cortina de tremor nos vidros do olhar. 
Escrever a manhã é agarrar palavras, arrancando-as ao vento agudo que passa, aprumando-as em linhas de cor. 
Escrever a manhã é senti-las progredindo do mar às nuvens espessas e arrastadas, e transformá-las em ondas de sol e ouro.
Escrever a manhã é desenhar uma composição, os intervalos entre as coisas como notas alinhadas numa pauta musical de frequências díspares, arrítmicas. Sonoramente temporais. 
E a partir daí, compor a nossa própria música. A que gostamos de ouvir, bonita de som, melodia da manhã. Melodia do tempo, hoje. Até querermos que melodiosamente o seja.

Maria Manuel Pereira Reis 
1 de fevereiro de 2019


Mundo

Será isto?

MUNDO

Penso no mundo. Tomo-lhe o pulso e sinto-o descompassado. Agita-se como esfera pesada, tensa, que carrega excessivo tumulto, lutas armadas e desarmadas, o fardo demasiado sobre o que intenta firmar. Volteia-se entre a força que detém e as fragilidades que lhe infundem. Objeta a que a paz que procura seja persistentemente desviada de um desígnio empreendido, ameaçada de morte por abalos humanos, perturbações sucessivas, desequilíbrios inexplicáveis.

Um mundo incapaz de entender tanto desentendimento. Contudo capacitado para lamentar que lhe sobrem muros, afastamentos e divergências. Para lamentar que lhe escasseie convergência e unissonância. Para lamentar que dedos acusatórios proliferem, nomeando problemas, culpas, desatenção, soluções demitidas - irresolúveis em tempo certo -, desesperos, medos insurgidos, socialmente, solidamente fundamentados.

Saibamos usar dos nossos corações para aligeirar o mundo. Concedendo-lhe o bem-estar de uma leveza pura, sem resíduos pendentes, austeros, hostis, conflituosos. Propiciando-lhe consolo, estabilidade de um lugar seguro. Respeitando-lhe o caráter universal, que provém de tudo e de todos, de cada um e de nós. De uma totalidade que deverá coexistir no garante da sua solidez, na proteção de uma herança consagrada, sobrevivente e sobrevivência sem prazos nem limites.

Maria Manuel Pereira Reis

26 de janeiro de 2019

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- Como defines gratidão?
- Sendo grata. Acolhendo gestos sinceros. Retribuindo-os na mesma sinceridade. Ampliando, hoje, aquele dia, outros dias, o valor imensurável do reconhecimento e da gentileza.

Maria Manuel Pereira Reis

25 de janeiro de 2019

AQUI


Lotaria da vida

Dois mil e dezoito não terminara...

LOTARIA DA VIDA

Apregoava a sorte grande pelas ruas. A cidade movimentava-se nas horas que antecediam o início da tarde. Naquele lugar soalheiro, de chapa para o sol, o seu brilho intenso, quase surreal para a data, batia-lhe na cara, realçando a sua tez morena e pregueada, endurecida nos moldes do tempo. Uma barba de alguns dias envelhecia-o. Na cabeça, um boné ruçado e gasto, de cor comida - uso incontável -, acompanhava-o na sua condição.

- Olhó 57, que até dá para uma avionete!

Avozeava-se como se proclamasse uma verdade irrefutável. Sobrepunha a rima e o seu sotaque da Invicta à distração alheia. Perfurava, sonoramente, os residentes habituais e habituados, e o turismo abundante e curioso que formigava das zonas castiças, baixas e ribeirinhas à monumentalidade de cada ponto alto. Para que todos sonhassem uma vitória, dir-se-ia garantida, choruda, excêntrica...

De quando em vez, agitava aquelas tiras de papel - bilhetes numerados, frações, acreditamente endinheirados - em torno do seu corpo circular. Subia-as, elevava-as ao ar de um estatuto dignamente reconhecível, a quem reconhecesse valor justo na sua aquisição e na possibilidade de uma conquista monetária enorme.

Não lhe vi vendas, uma só cautela, por assim dizer. Fosse como fosse, à cautela, dirigia os seus passos, lentos e idosos, e uma crença inabalável, num sentido estudadamente definido. Compassava o roteiro citadino e a esperança num ritmo comum, e por ele seguia, fazendo-se notado.

Antes que a tarde caísse no frio de um calor perdido, depositava a sua confiança nesta obrigação. Mantive-o em pensamento, a sua voz ouvida na distância. Não hesitava e investia alto em números rimados e de bom augúrio, eco de um pregão afortunado.

Uma fortuna alegadamente nas mãos de um cauteleiro ganhando o que se lhe oferecesse. A sua sorte na sorte de outrem, tentada no fim de um ano que se prestava a terminar. A sua sorte a prémio, esforçadamente lançada na lotaria da vida...

Maria Manuel Pereira Reis

janeiro de 2019

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Obrigada pelo vosso calor! 

Enquanto conversávamos, alertava-me, ciente da sua verdade.
- Tem muito cuidado com este frio! Agasalha-te bem! 
- Eu sei, pai. Eu tenho cuidado. 
- Andam por aí tantas gripes... 
Os três pontos finais falavam por si. Prolongavam-no, completando uma intenção profunda ou uma ideia consistente numa frase que se interrompera. 
- Sim, vamos ver se resisto.
- Esta altura é muito má! Sabes bem disso! E avisam que vai piorar!
A sua voz preocupava-se. Sempre mais comigo, do que com a sua condição. Protegia-me do frio e do meu medo, à medida que o dizia. Cada palavra verbalizada era o repúdio do seu próprio medo. Agasalhava-me no seu coração como filha sem idade. Criança no tempo. 
O seu rosto corava-se pelo calor das brasas. Volta e meia espevitava-as com uma tenaz, remexendo os lados e o fundo, como se atiçasse a vida. Através do ferro preto, espesso e robusto do fogão antigo, aquecia-se, próximo, sentindo no corpo a sua roupa mais quente e chamejante. Éramos família, alma e cumplicidade naquele momento, aquecíamo-nos, calor que se disseminava dentro e fora de nós.
Visitara os meus pais e a lenha ardia. A dureza gelada do ar aumentava aos primeiros sinais de um vento cortante e escuro. Despedi-me na densidade da noite quando a hora chegou. 
O meu pai tinha razão no que afirmava, os seus receios justificáveis, assentes porventura num saber convicto. Questionava-me, depois de os deixar - mãe, pai - aos seus próprios cuidados: 
Qual o nosso grau de resistência? Quanto frio poderemos afinal suportar? 
A resposta são três pontos finais, uma suspensão voluntária ou reticências, que o frio de janeiro ainda não se interrompeu. Há frio deste mês por vir, frio que desconheceremos até que se mostre e se faça destemidamente sentir. 
Obrigada pelo vosso calor!

Maria Manuel Pereira Reis
11 de janeiro de 2019

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Hoje escrevi. Inspirei o coração e poetizei corações. Mudei a cor do céu. Pintei a sua luz pálida em tons fortes de poesia. Fechei os olhos. Imaginei o sol num verso solto. Alinhei o mar numa rima de azul feliz. Ritmei a musicalidade das falésias e o som dos campos. Compus uma história e as flores à minha porta. Alinhavei o futuro a pontos largos, numa linha distendida, preparando-o sem a rigidez de uma costura vincada. 
Entretanto, o crepúsculo já fechou janelas ao horizonte, o fogo arde no calor de si, os corações são reflexos da lua, e a minha casa cobre-se de noite e de palavras.

Maria Manuel Pereira Reis
15 de janeiro de 2019

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De um ao outro lado

"Enquanto não alcances não descanses." - Miguel Torga


DE UM AO OUTRO LADO

Do país que sou. Uma ponte, e a minha admiração é um ponto alto, um privilégio no espaço e no tempo. Como alcance edificado, a sua imagem atravessa um rio, refletindo o espanto da altura, a ligação na distância de um esforço. E passam águas e ficam águas, entre margens verdes e longínquas, guardadas na grandeza singela de uma terra ou terras que o homem pode unir.

E há casas brancas e distantes, que são partículas inertes e minúsculas, cobertas a telhados de cor rubra e distinguível. E há as pessoas que lá moram, nessas casas, que são o interior e a vida que as ocupam. Vejo um lugar de sonho até me perder na realidade, tão real ou sonhado é tudo isto que me enche os olhos. A viagem que me eleva de um lado ao outro lado é límpida e natural, a matéria mais cristalina da minha verdade, o foco mais translúcido de qualquer verdade.


Maria Manuel Pereira Reis

17 de janeiro de 2019

(17 de janeiro de 1995 - data da morte de Miguel Torga, pseudónimo para Adolfo Correia da Rocha.)

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