Espaço do Autor
Maria Manuel Pereira Reis (2018)

(Re)Encontros

Tenho a agradecer...


(RE)ENCONTROS

PARTE I

Recebi um convite desafiante e de imediato pressenti que era irrecusável. Não deveria negar-me esse privilégio. Uma espécie de bênção recebida. Fazê-lo humildemente por mim, e por quem desejava que o aceitasse, tornava-se imperioso. Respondi perentoriamente à minha colega: sim.

PARTE II

Foi ontem. Aproximei-me com firmeza. As pernas sem indecisão. O peito ligeiramente descompassado. Entrei acompanhada pelo apego de quem ex-aprendente e sensivelmente presenteador. Com tenacidade indiscutível, esperavam que eu viesse. Outros já me aguardavam. Entrámos. 
Num olhar circular, notei que as presenças sentadas se dispunham num U maiúsculo e envolvente, criando uma ambiência familiar, reconfortante, e humanamente próxima. Senti-me dentro de um abraço coletivo, possível à escala de uma sala de aula.
Enquanto me preparava, acertei a respiração e, decidida, aclarei o suficiente a garganta, como se no desembaraço de uma memória perene. 
Estava ali, facto evidente, para relatar um processo compartido. Para avivar uma experiência e parcelá-la em partes de um conjunto inapagável. Para converter uma história vivida numa forma de aprendizagem, que um manual escolar dificilmente conseguiria, por muito texto e imagem de que se fizesse valer. 
Estive. Para contar a alunos de um curso que lhes exigirá o contacto direto com a saúde e a doença, o valor inestimável do auxílio; de um toque na pele pálida; de uma palavra aliviosa; de um sorriso sincero e desprendido; de um aconchego de lençol; de um movimento que nos muda a posição; de uma cadeira empurrada; de uma refeição que nos chega ao colo; de um entendimento atenuante que estabelece o preciosismo na diferença. Enfim, falei do que sabia...

PARTE III

No ensaio de um gesto refeito, rodeei as mesas, entregando-lhes uma folha. As mãos palpitantes no reconhecimento. Quem quer ler? A pergunta ressoou interiormente. Duas vozes gentilmente se ofereceram para dar início. Leram, em voz alta, para todos, como tantas vezes ouvi. Numa altitude que me foge, que não consigo alcançar, altearam desabafos que escrevi, distanciados pelo momento em que os registei, mas harmonizados no propósito, uno e intencionado. 
A dada altura, acerquei-me do quadro branco. Peguei numa caneta - escolhi a azul-, ergui o braço direito e escrevi o que calhava à ocasião.

PARTE IV

Entrecortei-me, emocionalmente ciente de pausas imperativas, mas sempre presa a uma vontade galopante e cadenciada. 
Aos poucos, agarrada a um silêncio inquebrável e aos corpos de juvenilidade que sempre encheram o chão que com eles pisava, avancei de parte em parte, até chegar ao todo conseguido.
Naquela sala de aula, atingida pela espontaneidade dos olhos que brilhavam e dos espantos sossegados que pareciam não se demover, não ouvi o toque de saída. 
Despedimo-nos, então, entre cumprimentos especiais. Mais próximos ainda do que antes estivéramos. Agradecimentos. Trocas breves e compactas no seu sentido. Dúvidas. Questões. Até breve? Vai voltar? Quando será?
Peguei na mala que levara comigo. Organizei a pasta com os papéis restantes, e que orgulhosamente trouxera. Num impulso incontido, agarrei no apagador, ergui de novo o braço direito, pus-me em bicos de pés, e rotativamente apaguei o que ali havia escrito. Depois, saí daquela sala de aula, visivelmente extenuada, mas na crença do profissionalmente correto.

PARTE V

Entre chegante e "partinte" (se não existe, paciência, dá-me jeito aqui!), muitos (re)encontros que seguramente permanecerão comigo. Acredito que voltarei. 
Serei a possibilidade que, presentemente, ainda desconheço, mas que, no seu devido tempo, se afigurará a revelação certeira e caminhante.

Maria Manuel Pereira Reis 
10 de maio de 2018


«Chama-se Mundo o que está nas nossas mãos

Chama-se Futuro o que dele bem ou mal fizermos!»

Maria Manuel Pereira Reis
24 de outubro de 2018
(24 de outubro - Dia das Nações Unidas - United Nations Day)



«Chegarei a acreditar que sou livre se pelas asas da palavra liberdade voar na consciência pensante de mim integralmente voo da minha vontade.»

Maria Manuel Pereira Reis

30 de outubro de 2018 



Repetição

Perguntava, de mim para mim, o porquê de ali estar novamente. A mesma sala cor de laranja - como lhe chamam -, inalterável, continuando a enganar quem por dentro a vê em meias paredes de azul. O mesmo espaço ocupado de quantos somos. A mesma densidade de antes.

Há quem se levante e saia. Há quem entre e se sente. Há dúvidas esbatidas em tons de branco pálido. Há rumores de impaciência. Há, no alto, uma televisão que por fim se desliga, cansada de falar, esgota-se, cansada de si, talvez cansada de nós, da nossa indiferença imóvel, apática, dispersada. Há silêncios perdidos no meio de vozes. Alguém que passa e atravessa a mudez de uns, as palavras de outros.

Entre a espera e o meio do dia, a resposta silenciosa ao que me perguntava. Sabia-a. Há muito que a sei, tão óbvia, tão simples... Porquê?

Porque tinha de ali estar. Porque quem tem de estar, está ali. Sem rodeios de expressão, sem desvios à regra. Nunca ali sou exceção, confirmada a minha presença, rosto de lugar e hora. Se me repito, é porque há a minha razão. Intransmissível. Manifestada a forma pessoal de repetidamente ali saber estar uma vez, outra vez, e mais uma vez quando assim tiver de ser, entre o alaranjado caloroso do exterior e um engano final de revelação azulada, sempre que avançamos o suficiente, recebendo no olhar as cores totais de onde incansavelmente estamos...

                Maria Manuel Pereira Reis

                novembro de 2018

                                                                                                                                                       AQUI



Ruas da cidade


Depois do dia que esteve, palavras de outro dia para aquecer a alma da noite... 


RUAS DA CIDADE

Deambulava por ruas da cidade, sem querer mais do que isso: deambular. Fazê-lo àquela hora era um fim em si mesmo. Não cumpria qualquer objetivo inicial. 
Por alguns minutos, sentei-me num banco da rua calcetada, e enviei uma mensagem, dando conta de mim. Dei duas ou três dentadas sôfregas num bolo que havia comprado, e que guardava para mais tarde. Comia-o aos pedaços e antecipava que, em breve, pouco restaria para mais tarde. Guardei desajeitadamente o que ainda restava. A boca adoçada. Os dedos um tudo-nada lambuzados - pormenor insignificante.
Levantei-me e continuei. A tarde apressava-se e eu não queria ter pressa. Mas não ignorava que algumas buzinas, impacientemente ruidosas, retumbavam de nervosismo perante hesitações e paragens. A intermitência dos sinais e a morosidade do para-arranca já espessavam certas vias. O tráfego adensava-se, alongando o bulício e a espera. Alguns gestos temperamentais atraíam outros gestos. 
Enquanto isso, continuava impoluta na indiferença a qualquer ruído. Desviava o olhar para formas e cheiros. Espaços decorados e castanhas assadas misturavam-se, combinando estações. Uma composição agradavelmente harmoniosa crescia a cada esquina, estendia-se de um lado a outro. Fisionomias, corpos e roupas quentes deslocavam-se em movimentos igualados, numa sincronia quase perfeita.
O dia fechava-se, escuramente, quando cada rua se encheu de uma luz que parecia desenrolar-se até muito longe, interminável. Uma extensão de enfeites, cor e brilho, diluía a escuridão e lustrava as superfícies. Um inverno próximo atirava uma aragem resfriada que me revigorava o rosto e picava os lábios. Uma última dentada em andamento, e o bolo terminava ali. 
Sentia o fim da tarde. Assistia à sua chegada, e mergulhava agora na rua final e no regresso. Pensativamente, antecipava, pela noite dentro, um toque quase invernoso entranhando-se, perpassando tudo à sua passagem, fazendo-se notado nessas ruas que haviam guiado os meus sentidos - perdidamente, livremente deambulantes, deambulando aos olhos de uma cidade iluminada...

Maria Manuel Pereira Reis
29 de novembro de 2018

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Esta festa de Natal

Escrevi o que precisava sobre...

ESTA FESTA DE NATAL

Enquanto caminhava para lá, pés resolutos sobre a manhã, era dominada por uma curiosidade crescente. E um pensamento interrogativo, indesviável do meu caminho. Acaso ou predestinação? 
Antes, num percurso de autocarro, eu e alguns alunos, meus no tempo que o foram, guardados ainda nessa condição, inesperadamente reunidos. Os bons-dias dados, cumprimentos mútuos, cada um ali cumprindo algo. Uma aluna de coração enorme - jeito único de ser, assiduidade infatigável - senta-se junto a mim. Sorrimos ao reencontro, uma e outra ternamente agradadas. Há vários meses que não estávamos assim, presencialmente lado a lado. 
Caminhei mais um pouco, pensante, curiosa. Estava cada vez mais perto, este dia tão novo para mim. 

Quando finalmente cheguei, o átrio principal era já um lugar de muitas presenças, o ar rodeado de cor e brilho misturando-se com a azáfama dos movimentos. Duas mesas compridas e alinhadas, cobertas por toalhas de padrão natalício, denunciavam a diferença da manhã. As cortinas vermelhas do palco mantinham-se fechadas, ocultando cenário e preparativos. Muitas cadeiras dispostas em filas bem ordenadas aguardavam ser ocupadas. 
Entretanto, o professor chama-nos à nossa sala. Sentados para uma breve revisão do aprendido na última aula: divisões da casa. Durante alguns minutos, avivamos o saber e a nossa capacidade de memorização. Tentamos mostrar o nosso melhor, puxando por nós e pelo que nos foi ensinado. Dali, depressa partimos para outras palavras, que naquele dia ganham especial sentido. 
É o dia da nossa Festa de Natal. O professor faz uma breve apresentação. Na Associação Portuguesa de Surdos, ensina, continua a ensinar, esta manhã não constituindo exceção. Queremos aprender, estamos atentos, sabemos manter o olhar focado no que vemos. Os nossos dedos seguem o que faz, o nosso rosto acompanha, todo o corpo responde. Haverá teatro, projeção de imagens, duendes, o Pai Natal, presentes, muitas crianças, famílias e os gestos que as unem, amigos, associados, alunos, professores. Saímos da sala de aula. Casa cheia... 
A plateia acomodada, eis o momento de começar. Sentamo-nos na mesma fila, eu e uns quantos colegas de turma. As cortinas vermelhas abrem-se, do meio partindo cada metade, deslizando lateralmente, depois recolhidas, desvendando surpresas. São muitos os objetos que enfeitam e decoram o espaço, estrategicamente posicionados, guarda-roupa escolhido, apropriado para a ocasião, atores e atrizes, amadores dedicados, uma forma de representar. 
Tanta expressividade na ausência de som. Um grupo de pessoas atuando, exprimindo-se com aquela alegria, um entusiasmo fervilhante a contagiar o palco e o público. Se para uns, a facilidade em acompanhar, para outros a atenção redobrada exigia-se. Redobrei a atenção. Queria perder o mínimo do que se dizia em palco, a vivacidade na expressão de uma história que ia sendo contada. 
No fim da história, o Pai Natal na sua cadeira, com ele um monte volumoso de presentes, diminuindo progressivamente até não ser um monte volumoso, até não ser volume. Um contentamento generalizado, espalhando-se. Continuou-se, o paladar animar-se-ia de seguida. E animou-se, como previra.
Teria imaginado assistir a esta Festa de Natal? Não. Mas estive, assisti, festejei. De nada me queixo. Pelo contrário, regozijo-me no que me torna melhor. No que me faz conhecer o que desconhecia. No que acrescenta riqueza ao que já tenho. 
Enquanto caminhava para lá, e posteriormente no regresso de lá, esse pensamento dominante, que me devorava. Talvez tudo aconteça por uma razão que desconhecemos, mas que nos conduz por determinado sentido. Talvez. E lembrava-me - de certa forma lamentava - que há quem insista em ver no muito que tem o pouco que lhe reconhece, confundindo, demasiadas vezes, quase tudo com quase nada.

Maria Manuel Pereira Reis 
16 de dezembro de 2018



A raiz da diferença

Pelo olhar da escrita, registei... 


A RAIZ DA SUA DIFERENÇA


Crescia ao rés do portão da casa que é a minha.

- Bom dia! - parecia dizer, quando me encarava, a cada manhã em que a via.

Em lugar duro e infértil não vergava a sua vida à inospitalidade das pedras do chão. Afirmava-se indestrutível, cuidando de si num autodomínio auspicioso.

- Gosto de aqui estar! - reforçava, assumindo uma rebeldia agrestemente enraizada, mesmo que em terra fronteira houvesse quem não lhe seguisse o exemplo.

- E eu gosto que estejas onde estás! - dizia-lhe, num reconforto que declarava franco e sincero. - Se é esse o lugar da tua origem, permanece onde estás!

Voluntariosa, acrescentava mais e mais ao seu aumento espontâneo, mesmo que tão invulgar fosse o seu ponto de germinação. Resistia aos ventos mais agitantes que a sacudiam, e que depressa fugiam para longe, altivamente fugiam. Enrijava-se sob a queda das chuvas mais densas, ferozes e pesadas, absorvendo delas apenas o necessário a uma sobrevivência feliz. Aquecia o verde do seu coração no toque sempre meigo do sol possível.

- Sim, sou diferente!

- Ainda bem que o és!

- Haverá nisso algum problema?

- De facto, nenhum!

A cada dia passando por nós venerava esta autenticidade. Admirava-a, de forma evidente, na ousadia desta diferença, não sendo como as demais, mas sendo, especialmente, a sua existência diferenciada.

Acariciava-lhe as folhas com olhos de ternura. Sorri à primeira flor nascida no ventre do outono, aguardando o fruto de uma delicada fertilidade. Acreditava que a sua vontade mais profunda iria vingar, superiormente fazendo frente a um inverno previsto, avistando-se.

Escurecendo, fechava-se para a noite. As luzes que iluminam a minha rua eram também as luzes do seu corpo. Adormecia, sonhando o dia seguinte, sem nunca saber o tempo vindouro. Simplesmente aguardando mais um dia...

- Boa noite! Amanhã, aqui, neste mesmo lugar.

Derrubou-a uma rajada que por estes dias soprou impiedosa. A raiz da sua diferença ainda se aprofunda, presa às palavras que lhe escrevi, à imagem que lhe guardei...


Maria Manuel Pereira Reis

21 de dezembro de 2018

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